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O frasco

Imperfeita, bela em sua magnitude. Dos erros tortos, palavras inóspitas e comportamento vil, surge-te uma fenda de beleza. Deste seu pecado de ser humano, santo pecador, chafurdado em atitudes hipócritas, ofereceu mais do que poderia dar.

E numa luta singela, apesar da aquarela, um tom de preto sorriu. Entre afagos naturalmente improvisados, a força de um empurrão. O choque inerente da realidade, impactante, reveladora e intrusiva. Acessa a mente removendo incertezas, pureza e esperança.

Em um açoite de morte, esvai-se um tanto de vida. Mas o frasco está acostumado. Arrancam-lhe todos os dias uma fina linha de fita, com borrifadas certeiras, as doses homeopáticas parecem enganar. Dizem que quase nada se foi e que sempre há mais para gastar.

E para quando se esgotar, refil. Refaz-se. Preencha-se. E começa tudo outra vez. Mas que, de alguma maneira, de forma sorrateira escorrega o vasilhame de sobremaneira que lhe esparrama pela mesa. Estilhaça-se enquanto um coro choroso de vidros cantam, espalhando-se por todo o chão meloso.

Fundem-se em um. Líquido; Cacos; Azulejos e eu. Como que eu forma gasosa, despeço-me dos temperos substanciais que me deram forma. E ganho a rua, os ares e os céus. Enfim livre, uma fragrância que fez toda a sua história, mas que talvez nunca mais vai ser lembrada.

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Rarefeito

Há uma névoa que cerca a minha montanha.
Esta neblina que cega, impede o campo do possível.
Mas eu não me importo, eu continuo a mergulhar.
Eu vou fundo na imensidão e subo à superfície para dar um suspiro.

Você me abraça, me envolve e então me solta.
Eu me desenvolvo na canção, sinto meus braços leves.
Sinto minha respiração. Consigo ouvir as veias do meu coração.
Elas trabalham de dentro para fora, empurrando. Sangrando.

Por muito tempo me pouparam de algumas dores.
É tão inevitável. Fora inútil vendar meus olhos.
Que agora se abrem como duas mariposas.
Despidas de suas cascas e dos pesos mortos: voa.

Eu estou livre. Não há mais chão, nem mar. Há ar.
Ademais, pouco. Na atmosfera rarefeita, sobrevivo.
De canto de olho, observo o seu movimento. Sorrateiro como uma cobra.
Desliza-se sobre as sombras projetadas pelo meu corpo.

Então, me ataca. Deliberadamente, suga-me com sua boca.
E como num transe hipnótico, me diz coisas bonitas.
Não cabe mais espaço para minha reflexão. Meus pensamentos se vão.
Fica apenas o desejo pelo seu medo. Quero você sedento.

Com medo da seca, me toma por inteira. Em goles apressados, me revira.
Me faz tua. Me faz louca, me põe nua. E a calada se desfaz em gemido.
Eu já não me importo com as consequências. Caio pelo agora.
Nesse minuto que se fazem as horas. Termina em jato, molhado.

E satisfeito, me desfaço do fato análogo: estou preso a sua liberdade sufocante.




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Born This Way Ball em São Paulo

Vou começar contando um pouco da história da Born This Way Ball. Assim que Lady Gaga terminou sua última turnê, a Monster Ball, já começava a especulação sobre a próxima. Entre os possíveis nomes, estavam The Eletric Chapel Tour e Monster Ball 3.0. A primeira era a que mais me agradava, por se tratar de uma música deliciosa da Gaga e por conta da tradução, que significa capela elétrica, um lugar onde todos podem ser aquilo que gostariam de ser. Algo que Gaga muito leva a sério. Mas não, ela tinha que deixar o tal Ball no nome da turnê. E eu não entendia, até então, por que raios ela insiste em nomear de "baile" seus shows.

Pois bem, dia 11 finalmente chegou e, com ele, o show de Mother Monster em terras tupiniquins. E o espetáculo que Gaga nos traz começa desde o lado de fora, muito antes do show começar. Seus fãs vão vestidos para o baile. E esta é, definitivamente, a ideia da turnê. O bizarro, o estranho, o politicamente incorreto e feio se tornam o grande chamariz da festa. Quando mais "weird" a pessoa parecer, quanto mais autêntica ela for, maior é a conexão com a cantora. E isso não faltou na fila em São Paulo.

O espetáculo de Gaga seria drasticamente reduzido se chamado de show pop. É muito mais que isso: tem sua teatralidade, tem os momentos (muitos, aliás) inspirados em artistas consagrados do rock, tem a Gaga falando muito palavrão, interagindo com seus fãs, olhando nos olhos, apontando, elogiando as roupas, fazendo brincadeira, rindo, chorando, chamando-os para o palco, quase vinte trocas de roupa, dança, castelo em movimento, enfim, é algo tão imenso e uma experiência tão profunda para os fãs que a sinergia pode ser sentida até mesmo nas arquibancadas.

Não posso deixar de citar o quão forte foi Bad Romance, o grande momento da noite. O estádio inteiro unico em um único coro, gritando a estrofe que, talvez, seja a mais conhecida de Gaga. Eu sentia o chão vibrar, tamanha gritaria organizada. Foi, certamente, um dos momentos que muitos não-fãs presentes se emocionaram. 

Outra coisa que os não-fãs se surpreenderam e emocionaram foi o carisma e a simpatia de Lady Gaga, frente a uma imagem distorcida de que a mídia passa, em que ela é bizarra, oportunista, fechada e séria. Tudo uma ilusão: Gaga ri, se diverte, faz piada, sente-se a vontade para xingar seus fãs e, ao mesmo tempo, elogiá-los, faz seus discursos anti-bullyng e, no meio de algumas coisas ensaiadas, há espaço para o improviso. Vejam só:

Gaga Sabe

Em dado momento do show, Gaga fez questão de parar para falar sobre os ingressos. Agradeceu a todos os presentes por terem comprado o ticket para seu show, disse que sabia sobre o quão caro estavam e pediu para que seus fãs não ligassem para o que os outros digam, o importante é que, "com quatro anos de estranha e apenas três álbuns lançados, eu enchi um Estádio aqui em São Paulo", fazendo com que as cinquenta mil pessoas presentes vibrassem junto com ela. É importante notar o quanto a artista está engajada com os acontecimentos locais. Gaga também  não deixou de citar o comportamento do paulista, muito receptivo e aberto a demonstrações de afeto. "Vocês não tem vergonha de demonstrar o que sentem. Eu sou Italiana, compreendo muito vocês".

É importante frisar este momento de empatia com a cidade em que está, isto sem comparar a outras cantoras que não fogem do clichê de apenas dizer algumas palavras em português. Gaga não usou apenas desse artifício para ganhar o público, ela usou a língua deles, falou deles e para eles, em uma conversa sincera e carinhosa. A sensação que fica, e muito clara, é de que o palco e a plateia fazem parte de sua casa. Ela, que sempre gosta de falar que não tem uma casa própria, sabe que seu verdadeiro lar é se apresentando. É onde Gaga parece estar muito confortável, diferente do que vemos em frente as câmera de TV.

Coisas ruins

Sim, não há como deixar em branco as coisas que podem ser melhoradas. Gaga ainda tem muito o que aprender. Essa é apenas sua segunda turnê mundial e erros são comuns. O mais gritante é, de fato, o espaço vazio que fica entre um ato e outro. Na primeira hora de show, Gaga o preenche com maestria, colocando seus dançarinos para bailar, ou então a Mother GOAT para entreter a platéia. Mas, depois, parece que ela se esquece de que há esses intervalos e deixa o público à mercê do silêncio. Um saco! Esses buracos poderiam ser mais bem aproveitados.

Outro ponto é justamente a Mother GOAT. Eu imagino o quanto de dinheiro ela não investiu para criar aquele holograma. E, veja, ele fica ali estático o show inteiro. Por que ela não coloca o bicho para passear pelo palco, sobrevoar a plateia, passar pela passarela, fazer alguma coisa que dê mais vida e emoção à ideia de uma vilã na história toda. A sensação que fica é que Mother GOAT só emociona os fãs, sem gerar grande barulho, quando, de repente, ela poderia se tornar uma das grandes sensações da turnê.

Algumas pessoas sentiram falta de fogos de artifícios, explosões, papéis picados e esses artifícios comumente usados em momentos de grande emoção. Eu achei uma sábia escolha de Gaga por não optar por eles. O castelo é grandioso o suficiente para servir como alicerce emocional, o som é impecável e os dançarinos se mesclam à música, retirando a necessidade destes atalhos para as lágrimas. 

A experiência

Minha experiência em uma turnê da Gaga foi muito maior do que eu poderia imaginar. Os videos gravados pelos fãs não chegam nem perto da grandeza que é estar de frente com o palco e com a Gaga. Os blocos que tem entre uma música e outra, e que pouco são vistos no youtube, fazem toda a diferença, pois são nestas passagens de música que a Gaga encontra chance para o improviso. 

Por estar na pista premium, eu sentia que todas as músicas da Gaga eram muito bem compreendidas, visto que todos ali estavam cantando, com a letra na ponta de língua, faixa a faixa, até mesmo os não singles como Bad Kids e Princess Die. Mas, com uma breve passada de olhar para o resto do estádio, nota-se uma certa estranheza frente à faixas mais desconhecidas. Até mesmo Scheibe e Heavy Metal Lover não pareceu agitar a galera da arquibancada. Isso me faz notar o quão corajosa Gaga é, colocando não somente todas as faixas do álbum novo, como também outras que só os fãs conhecem. Fica a sensação clara de se tratar de um show pequeno de Rock, talvez em um bar, ou uma garagem, mas na pele de uma mega ultra produção. A sensação não poderia ser outra senão a de satisfação. 

Ah, e para finalizar, não posso esquecer de citar que Gaga cantou, pela primeira vez, The Queen, a pedido dos fãs. Minha faixa favorita do álbum, feita ali, ao vivo, no gogó, na minha frente. Um tipo de emoção que talvez seja inútil buscar palavras que a expresse. 




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La Traición

Fui fiel a ele. A essa coisa que chamamos de fidelidade.
Na ausência total de julgamentos e pensamentos críticos, me dei.
Aliás, não. Não me dei. Fui apenas dele e para ele. E tão somente.
E no final das contas, trai-me sem pensar.

Eu de fato não sei o que é traição.
Se é um olhar, dois ou três.
Um desejo, um pensamento, um beijo, ou mais.
Somente um contato físico, meta-físico ou paixão?

Apaixonar-se sim, essa é traição.
Mas, veja, não temos controle sobre a paixão.
Com, ou sem fidelidade, se alguém tiver se entrar, o fará.

O problema sou eu. Eu me trai.
Na confiança que depositei em mim,
Em uma vontade intensa de ser íntima ao meus prazeres
Negligenciei um ato que, de tão simples, é irrisório.

Trai meu impulso. Humano, animal, involuntário. Simples.
Visceral, carnal, sintético, inorgânico, incolor. Tão meu.
Jogado para dentro, sufocado, decapitado, esquartejado.
Rejeitado em partes por todo meu interior. Pulverizado.

Do pó, a lembrança efêmera de uma vontade morta.
Não tão morta assim. Enterrada agonizante.
Pronta para voltar como um zumbi. Um ciclo de traições pessoais.

E na tentativa de poupar o outro, me coloco na linha de fogo.
Me torno inimiga de eu mesma. Um dramalhão mexicano.
Com direito à título e tudo: La Traición.


Eso nos lleva en un vuelo: frustración. Mi nuevo himno.

O deixo feliz, mantenho as aparências.
E a mim, cabe o sorriso e a findável tarefa de esconder o corpo.
A metáfora do desejo assassinado dentro de mim.







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Cabelos pretos

São poucas as coisas que me fazem tremer
De um excesso formidável de felicidade
Que não cabe em apenas um sorriso,
Mas se torna um momento inesquecível.

Não foram seus olhos, tão amendoados e interessados,
Desenhados como duas safiras negras, não foram.
Nem sua mão, tão pequena e convidativa, para o segurar da minha.
Tampouco seu corpo, tão jovem e atraente, não foram.

Eu estava salvo do seu feitiço até poder vê-lo de perto,
O desenho de traços perfeitos do seu cabelo.
Aparentemente tão macios e aveludados, dançavam no vento.
E o penteado, meio que de lado, me pegou por completo, sem saída.

Embora pontos importante, ainda não são o mais relevante. 
Eu que estava morto na água, me atrapalhei e acordei para ver,
De onde vinha tanta escuridão no meu leito. Quem era tão negro.
E eram eles, os seus cabelos, eclipsando o mais escuro de mim.

Pretos como a morte, para os pessimistas, e o recomeço, aos otimistas.
Mas essa cor estava associada à inocencia e ao brilho do seu sorriso.
Neste caso, não poderia ser, não haveria de ser sacrifício. Não mais.
Então ressuscitou-me com seu sombrear, seu enegrecer.

São poucas as coisas que me fazem tremer, seus cabelos pretos são.


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Orgasmos múltiplos

Eu tenho vinte e cinco anos. Muito bem aproveitados, vividos e distribuídos. Mas nunca, nunquinha, tive um orgasmo múltiplo. Sempre usei o termo de forma ordinária, brincando e vomitando essa ideia como se fosse a coisa mais normal. Gozei gostoso, foi múltiplo. Acho que qualquer pessoa normal faz isso, você mesmo já deve ter usado o termo em alguma situação.

Acontece que, neste final de semana, eu realmente o tive. Sim, eu sofri um atentado carnal, violento e voluptuoso contra o meu pudor. Que já nem estava tão pudorado assim. Foi narrar aqui com toda a riqueza de detalhes que meu limitado vocabulário permitir.

Depois de muita lapada, gemidos viscerais, barulho de corpo se batendo, puxões, suor, enfim, no final de tudo, meu acelerar ofegante de respiração anunciava o fatídico gozo. Havia, enfim, chegado a hora. Lembro-me dos meus olhos se fechando e eu sentindo, lá do fundo do meu âmago, vir a porra.

Enquanto chegava, eu fui tomado por uma onda de prazer muito familiar. Sim, eu estava gozando. Que gostoso, que delícia. Mas, apesar de estar gozando, não era o gozo que eu senti lá do âmago. Estranho. Segundos depois, eita, que coisa boa, que eletricidade pelo corpo, que energia. Meus pêlos todos eriçados e, uau, caramba, outra sensação de gozo. Que intenso, que forte, que inédito. Duas seguidas em um espaço mínimo de alguns milésimos de segundos.

Eu podia sentir, como se fosse palpável, o tal gozo do âmago chegando. Sim, eu havia sentido como se tivesse gozado duas vezes, mas ainda não era o primeiro de fato. E ele vinha vindo, nervoso, avassalador, com emergência, destemido, quando, por fim, tocou a superfície do meu ser e extravasou. Nesse momento, haviam tantas sensações misturadas, porque tudo não deve ter passado nem dos cinco segundos, que eu entrei em estado de gnose.

Caso você nunca tenha se deparado com esta palavra, eu explico: é quando você atinge o nirvana, as coisas perdem o sentido, aliás, deixa eu me colocar melhor: você perde todos os sentidos. A total ausência de tudo. Foi o que aconteceu comigo. Eu cai dentro de um limbo, eu consegui me conectar com o espaço, com as órbitas do universo. Eu era parte de uma massa cósmica, branda, infinita, com inúmeras possibilidades de criação. Eu consegui ouvir o barulho do momento em que nosso sistema solar se formou. Senti as explosões do sol, emanando suas ondas assassinas de calor, tomando meu corpo, meu espírito.

Depois de toda essa viagem astral, eu fui sendo tomado pela realidade, voltando aos poucos para a cama que estava, ouvindo meu suspirar alto. Passou, infelizmente passou. Sei que aquilo foi algo que jamais eu poderia sonhar que existia. E, o pior de tudo, é que eu tenho completa ciência de que isso vai demorar, talvez, mais vinte e cinco anos para acontecer. Também, não há coração que aguente.


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Partindo lentamente

Casa de vidro, teto espelhado.
Somos tão lindos quanto frágeis.
Quando acelera o carro, ouço o ranger do motor
Como um rugido de leão faminto.

Não precisou de muito para tudo vir abaixo
Um sopro, e cacos de vidro se espalharam pelo chão
E o faminto rei da floresta se recolheu no inverno.
Forte como o aço, ajoelha-se diante da natureza.

Essa mesma que, por sua vez, levou nosso lar.
E o que somos agora, senão dois garotos,
Com um pouco de coragem, muito de orgulho
Repelindo-se à força dessa corrente que nos levou a casa.

Quando eu me deitei sem você, notei.
Deixei que fosse embora sem ao menos dizer aquilo.
Que tanto guardei e ensaiei à frente do espelho. E você.
Tentando se esconder em um semblante morno.

Engasgou-se em vezes incontáveis antes de pronunciar.
Estes que são seus sentimentos mais seus, e que vem pra mim.
Por que é difícil de assumir aquilo que se tem,
Quando se pode por tudo a perder.

E do que adiantou reerguermos nossa casa
Se não resistimos à brisa natural lá de fora.
Então você se foi, e eu também. E nada foi dito.
Nada que fizesse pararmos e nos abrirmos.

Não houve estacas nem pás para cavarmos mais fundos,
Apenas um suspiro de quem compadece ao destroço do vidro.
Lamentamos, com toda nossa nobreza. E nos deixamos, também por ela.
Mas agora, pouco importa, já dizia o velho poeta.

Entre migalhas, cacos e frangalhos, a própria natureza que me levou.


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Quanto pesa uma sentença

Mais do que uma tonelada. De fato, eu nunca segurei um peso como esse, mas uns seis quilos eu acredito que sim, então, são algumas centenas de vezes mais pesado.

Pesa o equivalente a dois planetas, pesados como o chumbo. Pesa uma vida inteira, os seus medos, suas expectativas, suas cicatrizes, seu desejo. Pesa como o proferir de uma sentença.

Pesa a responsabilidade da palavra lançada e com ela as verdades embutidas na expressão. Cabe-se aqui revelar-se, entregar-se, deixar vulnerável, abaixar as guardas e, quem sabe, ser apunhalado pelo inimigo. Ou, senão, que ele corresponda e termine em um abraço.

Pesam três noites sufocadas, ofegantes na tentativa de dizer. A sensação do peito estufar, os pulmões se encherem, o diafragma contrair, mas seu cérebro mandar o pedido de recuo. Voltem todos os impulsos, deixaremos isso para depois.

A grande verdade é que depois de dita, não há mais volta, você está completamente dispido frente à pessoa. A sentença pesa o peso de estar sem barreiras. Só você, ali, em meio a um bombardeio. Mas passa, ao passo do som da sentença do outro, proferindo a mesma sentença.

Eu te amo


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Homem que parece homem

Sensíveis, delicados, meigos, companheiros. Esses são os homens que parecem as mulheres. Aqueles que te ligam e mandam mensagem toda a hora, quer saber onde e com quem você está, te traz presentes, sofre por pouco e chora com facilidade.

São esses homens que me fazem ter vontade de ser heterossexual. Sim, porque se tem uma coisa que eu não gosto, é de meninisse. E não me refiro a trejeitos afeminados, mas sim a comportamento. Em minha limitada cabeça, homens tem que agir como homens.

Homens não se apaixonam em menos de um mês, nem fazem declarações apaixonadas sem qualquer motivo. Você valoriza uma demonstração de afeto de um homem, exatamente por ela ser rara e difícil de ser conquistada. Homens não iniciam D.Rs, eles lutam para terminá-las. E também não fuça sua vida na internet: homens se preocupam mais com o real do que com o virtual.

Os carinhosos me chamam pra uma volta na Frei Caneca, com direito à visita a uma exposição de arte, um café no Fran's e um teatro no Shopping. Já homens me chamam pra beber cerveja, ver um filme e trepar. E é disso que eu to falando, de tudo preto no branco. O colorido, o enfeitado, o cor de rosa, eu deixo para as mulheres.

Homem me manda foto pelado no celular. Fala palavras baixas, me deixa completamente excitado, mas, pessoalmente, é um lorde, alguém que sabe usar palavras difíceis às coloquiais. Homem me beija e me pega com força pelo braço, pela cintura. Os fofinhos, pegam com delicadeza no meu cabelo e passam as pontas dos dedos no meu rosto.

O apegado, me manda mensagem de bom dia. O homem, faz o meu bom dia acontecer. A barba fica por fazer, o cabelo bagunçado, a roupa tem a gola larga, o tênis é velho, a cueca também. Não tem marcas estampadas nas roupas, nem gírias na boca. Homens se importam mais com eles mesmos do que com o resto do mundo, e isso faz com que se importar com o outro seja, de fato, um prêmio.

Há aqueles que me dedicam músicas. Homens as cantam pra mim. Desafinado, meio desalinhado, mas com aquele olhar apaixonante que eu jamais saberia desviar. Os adocicados me elogiam a todo o instante, os homens só me elogiam quando eu realmente me produzo para matar. Eles sabem valorizar um elogio. Homens tem tudo na medida, é tão escasso que só pode ser recepcionado com muita alegria.

Os sentimentais dizem que me amam todos os dias. Os homens dizem que me amam quase nunca, só quando aquilo extrapola o limite do tolerável e ele precisa exteriorizar. O "eu te amo" dito, quase que dolorido, de um homem. É por isso que eu prefiro os homens.



Tudo (n)outra vez

Um certo tipo de coisa que não quer ser dita
Este mistério que não há nada que se esconda
Escancarado, insinua-se num véu de mentiras.
Na verdade, fingimento velado para um jogo.

Destes que não há perdedores, senão o próprio
Que se revela um esquema falso, um hiato.
Enquanto que, seus jogadores, vitoriosos natos
Unem-se a favor deste silêncio, neste breu.

De um lado, o doce fato das peças em ato
Do outro, a pressa e o lamento das delongas. Demasiado.
Um mal que, outrora, necessário, veste-se de rosa
Transparece desligado. É falso, falso e falso.

Por dentro, ambos se ardem e se assopram.
Na vontade de ficar, e na de ir embora.
E no fim da linha, os nós de quem se perdeu em meandros
E sorriem com seus grosso lábios.

Não foi fácil, porque assim não teria graça
E não foi tão difícil porque senão se desalinhava
Pois quando um hesita, o outro cede e volta
Colocando aqui o xeque que faltava. Faltava.

Agora, em grande probabilidade, não falta.

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O que foi isso?

Ele chegou com um sentimento que eu nunca havia sentido antes vindo dele. Me pegou pelos cabelos com um beijo que parecia de despedida, destes intensos, molhados, chorosos, quentes, excitantes, viscerais. Mas não era despedida, era reencontro.

Ainda no beijo, me levou para o quarto e tão logo tirou seu cinto e abaixou suas calças. Suas mãos ligeiras trataram de fazer o mesmo comigo, e logo estava com as calças até o joelho. Me abraçou com força e nossos sexos se encontraram de forma abrupta. Teria doído se não fosse o beijo. Tão quente, emergente e saliente.

Ele estava dentro de mim como nunca estivera. Com o próprio corpo, dançava de tirar o que sobrara da minha roupa. Com apenas alguns movimentos rápidos, ele me despiu por completa. E num vacilo, me pôs de quatro. Beijava-me a nuca enquanto me penetrava, sem palavras, apenas estalos de seus beijos e um fungar gutural.

Quando me virei, mostrando alguma resistência fingida, pude ver que ele estava encharcado de suor. Aquilo triplicou o meu tesão. Ele jogou seu corpo musculoso sobre o meu e fiquei sem poder me mexer. Novamente dominada por ele, pude sentir a ponta dos seus dedos percorrendo toda a minha pele. Me deixava louca com o toque aveludado de suas mãos, fazendo-me contorcer de desejo.

Nesta onda avassaladora, me dei conta de quanto eu já não havia arranhado suas costas. Haveria sangue? Não importava, somente a sua eminência sobre mim, indo e vindo num pulsar eletrizante, desvendando partes do meu corpo jamais exploradas. Me mostrando que o orgasmo era só uma leve cócega perto de tudo aquilo que ele estava me fazendo sentir.

Era animalesco, feroz, como um leão sedento de fome sobre mim. Sentia-me uma presa vulnerável, e isso aumentava minha excitação. Como se pudesse melhorar, ele gozou. E eu pude ver todos os seus músculos desenhados em seu corpo, ganhando forma, saltado, suas veias querendo explodir do corpo, seus olhos virando e, por fim, seu corpo caindo completamente mole sobre o meu.

Eu só tive folego para perguntar: o que foi isso?
E ele, à exaustão, respondeu: saudade.


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O chama

Seu cabelo molhado encosta em meu rosto enquanto eu o penetro por trás
A água do chuveiro cai em câmera lenta, em direção ao seu corpo
Por mais que tivéssemos colocado alguma música antes de entrar no banho
Àquela altura, não ouvíamos nada. Eu só tinha ouvidos para seus gemidos
Os músculos de suas costas se desenhavam e sorriam para mim.

Minhas mãos seguravam firme em sua cintura
Trazendo-a para frente e para trás
Me colocando ora profunda, ora superficialmente dentro dele
Seu rosto às vezes me procurava, completamente ensandecido
O nosso beijo se afogava em meio à cachoeira que caia do teto.


Não havia espaço para suor, apenas a água escoando pelo ralo
Cada centímetro do meu invadindo do dele. E claro, quente e suave
Sua face mesclava com beleza certa dor e muito prazer
E à medida que acelerávamos nosso ritmo, o som gutural de seu gemido rasgava o som
Inebriado pela forte sensação, agarrei em seus cabelo molhados e puxei com força.

O urro final trazia o viscoso líquido branco, cor da paz
E nada mais estava ali, como mágica sumiu.
Abro os olhos, estou em minha cama, sujo de mim mesmo
Para perceber que, mais uma vez, enlouqueço-me com minha mão
Mas em mente, minha alma o chama.




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The Dark Knight Rises - Crítica

Centenas de morcegos formam o símbolo de Batman no primeiro filme da trilogia de Nolan. No segundo, chamas azuis que dão o tom do slogan. Neste último, rachaduras formam o grande emblema. Ranhuras essas que simbolizam o que está por vir: destruição. Essa é a palavra que rege todos os segundos do filme, desde a primeira à última cena.

Tal qual o anterior, The Dark Kight Rises é uma crescente de emoções. Começa tímido, preparando o terreno e vai crescendo, trazendo clímax até de clímax, drama, suspense, aguçando o faro de detetive dos seus espectadores, fazendo o interesse crescer junto à trama. Essa, explicada à exaustão já pelos trailers, o que, de fato, tornou a experiência um pouco mais previsível, mas não menos intensa e interessante.

Logo de cara conhecemos a anti-heroína Mulher-Gato, que nunca mia e nem é chamada por tal codinome. Mas quem precisa de apoios cartunescos quando tem em mãos a doçura de Anne Hathaway, misturado com seu talento dramático em se tornar uma vilã sexy, envolvente e, sobretudo, cativante. A grande pergunta que fica é: ela supera a interpretação de Michelle Pfiffer? É claro que não temos resposta pra isso, uma vez que são mundos completamente diferentes. Cada uma cumpre com destreza a função de gatuna em seus respectivos filmes, e aqui, com o tom Nolístico, ficava impossível ver alguém correndo de látex e miando pelos telhados de Gotham.

Compreendemos rapidamente suas motivações, as razões pela qual a tornam uma ladra, uma fugitiva e uma antítese do nosso herói, Batman. Falando nele, a interpretação de Bale atinge seu ápice neste filme, com tantas cenas de Bruce quanto do Caped Crusader. Parecem dois seres distintos em cena, tamanha a capacidade do ator de mudar dentro e fora do figurino. O filme ainda exigia uma carga dramática jamais alcançada até então, com direito a lágrimas e pancadaria de puro desespero.

Sobre desespero, gostaria de falar de Bane. O vilão da vez é forte e ágil como uma bomba-relógio, o único à altura de Batman. O medo que causa à pessoas também vem provido de sentido, embora ele tente transformá-lo em algo bom, sabemos que toda a finalidade é apenas uma: o mau. Este em seu sentido puro, o de tortura, de fragilidade e de sadismo. A linguagem facial de Hardy é convincente, e sua voz soa como um trovão ameaçador, embora ele sempre mantenha o tom irônico e soberbo. Toda aparição do Bane causa desconforto, pois não há nenhuma cena em que não haja violência, psíquica ou física.

Personagens secundários, como os de Lucius Fox e Alfred parecem ganhar aqui sua importância, tornando-os peças chaves e fundamentais para todo o desenrolar da história. É neste terceiro filma da Trilogia que os atores dos respectivos personagens mostram ao que veio, com mais tempo em tela, mais diálogos relevantes e mais participação ativa. Um grande alívio, pois são personagens que ganharam carinho de todos os fãs da série.

Os novos rostos também dão seus espetáculos em cena. O policial John Black e Miranda Tate são sinceros e bem explorados pelo roteiro dos irmãos Nolan, ganhando nas (poucas) 2h45 de filme, atenção e carisma do público. O jovem, por exemplo, torna-se braço direito de Gordon, e assume as rédeas quando este, por sua vez, encontra-se incapacitado. Mas não se assuste, Gordon tem uma grande participação, sendo, também, um dos grandes heróis do filme, assim como foi nos outros.

The Dark Kight Rises não traz o grande fator surpresa do primeiro filme, também não nos faz torcer pelo vilão, como no segundo, mas os últimos vinte minutos do filme é tão grande, tão forte, tão intenso que engole os dois últimos trabalhos do Nolan com um gole. As cenas de ação estão tão desenfreadas e anárquicas, que faz o caos do Coringa e a épica cena do hospital parecer efeito explosivo para crianças.

Definitivamente, Nolan sabe criar um espetáculos, utilizando-se, desta vez, do enorme poderio sonoro criado por Hans Zimmer. Não é apenas uma música de fundo, é protagonista da obra. A sonoridade é tão presente e marcante que, nos momentos de tensão, faz com que você sue frio, e nos momentos de drama, encharque seus olhos. 

Ao desfecho do filme, fica aquela sensação de dever cumprido, de ser honrado por viver e poder acompanhar esta que deve ser a maior trilogia baseada em heróis de quadrinhos. Mais que isso, o final de The Dark Knight Rises te faz sorrir ou chorar, dependendo do seu ponto de vista e das suas expectativas, mas jamais te deixará indiferente. É um filme, portanto, que se faz valer a pena o tempo de espera e finaliza uma franquia de muito, mas muito sucesso.

O que eu chamaria de clássico instantâneo.


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Colecionador de sorrisos

O meu amor é colecionador
Faz coleção de sorrisos a torto e a direito
Dos banhados a ouro, aos sofridos de guerra
Sorrisos verdadeiros, alguns nem tanto
Aqueles de canto de boca, envergonhado por existir
Outros abertos, barulhentos, escandalosos
Sorrisos que avisam a quem puder ouvir
Que seu dono está, sim, muito feliz.

Sorrisos espontâneos na frente do computador
Os forçados nos encontros casuais
Sorrisos sofridos de guerras e batalhas sangrentas,
Mas, ainda assim, sorrisos. Amargos e belos
Sorrisos sem dentes, alguns parecem até caretas
Tem também aqueles sujos de chocolate
Os brincalhões, são os meus favoritos
Que só nascem pelo fato de fazer outros nascerem

O meu amor é um colecionador eclético
Tem em sua coletânea sorrisos de nervoso
Daqueles que a testa se rugam de preocupação
E também os de amor. Sorrisos apaixonados
Que se abrem sob pressão dos batimentos cardíacos
Sorrisos que não temos controle, que explodem em nossas bocas
Tal qual o sorriso da saudade. Esse acompanhado de lágrimas
Sorriso choroso, o meu amor acaba chorando junto

E para mantê-lo para sempre por perto de mim
Eu sorrio despudoradamente, displicentemente
Um sorriso de prazer, safadinho, pouco comedido
Daqueles sorrisos que só eu sei dar, e pronto.
Renovo o pacto de eternidade que firmamos juntos
Na vez que sorrimos pela primeira vez, um para o outro
E meu sorriso é o que ele mais aprecia de sua coleção
Este sorriso que é meu, mas que é só dele.



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Festa Julina

Eu não sabia pelos motivos que viria
Haviam fotos, dados e alguns rabiscos
De ideias, probabilidades e potencialidades
Em que, na maior das hipóteses, o corpo dele se valeria do meu

Mas fora cruel com meu raciocínio
Com teus lábios mais grossos que minhas barreiras
Rouparam-se com apenas um toque. Esguio, fascínora, sombrio
De que seu olhar tímido me dizia, que uma forte onda me atingiria

Enfeitiçado, você trouxe sua mágica para a minha casa
No ferro do teu corpo, o imã do meu. Queimaduras de primeiro grau
Neste fogo em plena chamas, o beijo que me calaria. Na brasa.
E do silêncio da cozinha, seu sorriso me levando à fantasia

Desfiz-me num trago de cigarro
E você me trouxera de alguma armadilha
Que me encanta com teu corpo
Me envolve, me fascina e me enfeitiça.

E desta linda conjunção, minha fabulosa festa julina


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Uma linha tênue

Nós, os corações quebrados não queremos segundas chances
Também não esperamos por um milagre, e nem que o tempo volte
Desejamos, intensamente, apenas que o outro esteja sofrendo o mesmo pela gente
Porque os amores românticos só se realizam quando não se podem concretizar

É nesta dor mútuo, de pura paixão, que percebemos o amor quando é romântico
Quando ele sangra e choro gritando abafado pelo nome do outro
Só assim pode-se provar verdadeiramente que se está amando
Não há outro jeito que não na deliciosa dor que nos atesta imbecilidade passional

Estamos mais realizados do que nunca, porque sabemos que é verdadeiro
E que por isso vale a pena sofrer, para que o futuro possa existir
Agora sabemos, sentimos, vivemos como um no outro, dividindo alma
Compartilhando esses segredos que em vão tormento, esmoreceram-se

Sofreremos até o deleite que o gozo nos trará de sabermos
Nossas certezas esculpidas, uma no corpo do outro
E estarmos cansados, fartos e seguimos em frente
Pronto para não mais sofrerem, mas de sim serem felizes

Então, retomo as rédeas da minha escrita e desfaço essa linha
Provando que estou sóbrio o bastante para discernir
Aquilo que vive em mim, e aquilo que não está mais aqui
E o que eu não me canso de me perguntar é:

Até quando?


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Bom dia

Não há certo ou errado em jogos que não há regras
Longe de soluções, de equações, a vida segue solitária
E enquanto houver força, haverá batalha
Entre esse lugar que você quero ir e onde quer estar

Não existe consenso numa relação de dois
Quando um não quer, o outro perde a vazão
E no enlace das emoções, dados jogados e alguns peões
Cenário de um tabuleiro com peças chorosas e inexperientes

Quanto mais se vive, mais se sabe que pouco viveu
Do tipo de cara que se apaixona por um sorriso
Não me convenceria a ficar por mais de uma noite
E se isso te deixa tão feliz, não sei porque choras.

Nestes versos que são tão nossos, exprimo solidão
Como numa catarse sem analista. Um monólogo sem platéia
E os aplausos se fazer no estardalhar do seu silêncio
Um vulto pouco amigável que traz felicidade opaca

E se fosse noite, boa noite
Se fora tarde, boa tarde
Mas, se põe o dia, recuso num suspiro
Não há bom dia completo sem você


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Sorvete no Inverno

Sorvete no inverno, uma das melhores coisas que existem para mim. O gosto na medida, o equilíbrio perfeito entre o calor do corpo e o frio do ambiente. Sensação de controle sobre si mesmo. É como sentir calor e se jogar na piscina, sentir o choque invadir seu corpo, a sensação de estar dentro do gelo. Não gosto. Eu gosto do balanço sincronizado.

Nosso corpo está frio, tal qual o sorvete, e por isso não sente as intempéries da diferença entre as temperaturas. Você consegue sentir todos os sabores do sorvete, sem estar com aquela sede apavorante do verão. E como fica cremoso, gostoso, macio, não tão gelado, no ponto exato entre a perfeição e a imperfeição.

E não me importo com esse parecer errado das coisas. Como se apaixonar loucamente no verão e abdicar dos flertes suadas em areias e clubes pela cidade, ou cair em uma solidão amarga bem no inverno. Parece errado, mas pode ser tão gostoso se experimentado sem mordaças nem viseiras que limitam nossa percepção.

Então, já pensou em fazer essas coisas que são tão gostosas e acertivas, quando nos abrimos a elas? Abrir-se ao mundo quando este parece estar trancado, fazer parte dessa minoria que canta unida como um coral de milhões de vozes. Cair dentro do vazio dos medos e encontrar, lá na escuridão, seu pote de sorvete em plena geada. E por que não?



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Até o Próximo

Qual o nome disso que passou de você para mim?
Como num tiroteio, fui acertado em cheio
E nessa crescente, uma vontade eloquente
A de encontrar na sua boca o agradecimento por aquele incidente

Quantas vezes já pensei em agir por impulso
Acho que não caberiam nos dedos das mãos
Mas essa foi uma vontade que não veio de mim
Surgiu de algum passe, uma mágica, uma ilusão

Inconsequente, às vezes ajo sem pensar
Incoerente, na vontade louca de te beijar
Imprudente, no esguio gesto de te abraçar
Sem precedentes, meus olhos fitando sua boca e a minha a salivar

Alguns passos depois, ufa, libido cessou
Mas o que foi isso, que de forma tão saliente me tomou
O desejo pelo prisma do impossível
Uma coisa que, realmente, me instiga e me devora

E que, por ora, está incubado e trancado
Até o próximo. Só até o próximo


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Clipe Spectrum - Florence + the Machine

A viagem de David LaChapelle no novo clipe da Florence mostra o quanto o fotógrafo é despreparado para o mundo audiovisual. Reconhecido pelas suas fotos ousadas e artisticamente impecáveis, pela teatralidade, exagero e cores absurdas, LaChapelle nos entrega um clipe que, fotograficamente, é inquestionável.



Não se engane. Por detrás das loucuras vista no clipe, não há história. O diretor, que sempre passa uma mensagem com suas imagens, aqui se perde em conceitos e cenários que não funcionam para clipes. Felizmente, fica de presente para todos um visual belíssimo de Florence, com seu cabelo cortado em camadas e até uma versão infantil da cantora, vestida de bailarina.



O que a música diz?

Spectrum é de longe, a primeira música que eu gostei do cd. As outras foram crescendo ao longo de cada ouvida, mas, esta faixa, ganhou minha simpatia logo de cara. E é exatamente sobre isso que a música diz. Apaixonar-se rapidamente. O espectro que ela se refere é esse sentimento que colore tudo que estava acinzentado, quando não havia espírito nenhum lá dentro. Tudo, claro, desperto com o soar de seu nome. Não é lindo?

De certo, haverá os fãs que dirão que Florence é uma artista indie e que, como tal, merece um clipe deste jeito, meio hypado, meio amador. Eu já não acredito nisso. Florence cresceu absurdamente de um cd para outro e sua imagem acompanhou essa evolução. Hoje, quem não conhece a ruiva? De hipsters à princesinhas do pop, todo mundo cantarola uma ou outra canção da inglesa.

Embora tudo isso seja levando em conta, vamos combinar, trata-se de um erro de David LaChapelle. Quem não queria errar com esse lindo? Vamos curtir então essa piração belíssima com ao som de Florence:




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Água e vinho

Uma noite sem nome, dona de si mesma
Das secas terras pueris, seu cabelo
O sorriso pequeno que, banhado pela luz da lua, sorriu
Um agente intimista, terrorista da minha admiração

Forte, no sentido figurado, desfigurou-se em gestos leves
Alguns olhares não vistos, atentamente despercebidos
Secando-me enquanto te fitava pela rabeira sorrateira
Não houve coragem, num silêncio, alguns toques quentes

No holofote que me revelou, comoção.
Queixo caído para seu corpo que se mexia
Voluptuosamente, envolvia-me em uma cerca elétrica
Queimando retina, libido, fantasmas, meus órgãos

Hipnotizado, perdi minhas armas, adeus ofensiva
Refém da sensualidade, tuas curvas em movimento
Procurando te prender, fui preso. Mártir sem resistência
Com a certeza autista de que é recíproco. De alguma forma.

Eu, seu vinho. Você, minha água


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Em si mesmo

A última vez que nos encontramos com Ivan, ele havia transado com o namorado de sua mãe. Ele cresceu, destemido e violento, não no sentido físico, mas no sentido de suas ambições. Trata-se de um adolescente abençoado pelo poder de não ter um coração, ou de, pelo menos, não fazê-lo funcionar para as coisas apaixonantes da vida.

Ivan nunca se envolveu, nem com amigos, nem com meninos, nem com meninas. É ele por si só, e fim de história. Até que, claro, um certo momento, ele se deparou em uma situação verdadeiramente interessante. Em uma de suas aventuras sexuais, colecionador que era, mantinha esse tipo de comportamento ativo em constância, enfim, retomando, em um deles, Ivan conhecer Cézar, um tipão com seus quase cinquenta anos que pagou por um boquete.

A diferença deste, para os outros, era o poder aquisitivo. Cézar tinha muito dinheiro, o suficiente para comprar Ivan. Ou comprar a atuação dele. Começaram a namorar, e ambos sabiam, era de mentira, mas ambos fingiam que não. Era uma farsa velada, e o fetiche morava nesse esconderijo. O silêncio era o propulsor do interesse de ambos. Ivan sabia que não sentia nada e que estava com Cézar por interesse, e o outro, por sua vez, tinha a mesma consciência, embora, ambos vivessem em um jogo em que simpatia, carinho e amor faziam as vezes.

Não haviam cobranças nem problemas, apenas um cartão de crédito sem fundo, roupas, perfumes, viagens, vida social bastante movimentada. Cézar gabava-se para a sociedade com seu novo troféu, enquanto que o outro abusava das regalias que isso lhe trazia. E quem somos nós para julgá-los quando, no fundo, ambos estão felizes com a situação?

Com o passar do tempo, o que era interessante para Ivan, tornou-se um tédio. É o sentimento que se experimenta quando se tem tudo na vida. Ivan tinha tudo que quisesse, em um estalar de dedos. Essa facilidade de ter o mundo sob seus pés fez com que o garoto entrasse em uma grande crise. E não pense que foi uma crise de consciência, ele entrou em uma crise pessoal sobre o que fazer dali em diante. O que ele teria que, de fato, conquistar nessa vida?

A primeira coisa que ele quis se desfazer foi de Cézar. Ivan raciocinou que o velho era a ponte que ele tinha entre quem ele era e tudo que ele tinha. Portanto, saltou dela. O rompimento mexeu com todas as estruturas do senhor de cabelos grisalhos. Por essa, ninguém esperava. Cézar entrou em depressão ao notar que, de fato, sentia falta do garoto. Será que era amor? Ivan, nem aí para ele. Partiu sem pesos nas costas, livre e leve.

Então você deve estar pensando, "mas poxa, nesse conto não teve nada erótico como os outros, não parece a coluna do Ivan". Mas preste atenção, releia tudo novamente. Veja quanto de gozo Ivan proporcionou ao longo dos parágrafos. Houve abuso, estupro, violentamento, sadomasoquismo e até mesmo voyerismo. Talvez esse tenha sido o conto mais erótico de Ivan, neste que por não ter onde mais enfiar o pau, o menino o enfiou em si mesmo.


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Obrigado

por ler, sua horrorosa

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